Lembrando de sorrir

Lembrando de sorrir

Mais um dia chuvoso nesse verão (que de verão vi pouca coisa). Dias chuvosos me deixam nostálgica, não melancólica, mas com boas lembranças dos tenros tempos da infância. Recordo-me muito de meu avô. Talvez porque faleceu em um dia assim, meio chove/não chove. Gosto de pensar que as vezes a natureza tem dessas coisas, parece que acompanha e consola o humor daqueles que ficam desamparados. Lembro-me de quando criança ele sair andando apressado para ir ao sítio: “quem vai comigo me arrudeia, quem não vai como areia”, era a célebre frase que ordenava a todos que saíssemos correndo, pegando as coisas que precisávamos para passar o fim de semana.

Tínhamos algumas tradições ao ir para o interior. Era imprescindível comprar queijo trança, vendido por meninos que ficavam nas estradas das cidades minúsculas. Segundo meu avô, queijo de água suja, referindo-se ao plástico cheio de água em que os queijos eram armazenados. Chegando na  cidadezinha do interior, em que tínhamos que passar para ir ao sítio, parávamos na padaria. Haviam dois tipos de sorvete, os da Kibom e os caseiros, segundo meu avô, os de água suja. Logicamente era esse tipo de sorvete que ele gostava, os sabores eram bem proeminentes, fora a variedade, picolé de milho verde e coco queimado são alguns exemplos. Segundo meu avô, era a água suja que fazia tudo ficar tão saboroso, óbvio que eu e meus primos nos divertíamos com aquelas aventuras tão bem calculadas por ele.

Já no sítio, acordávamos de madrugada ao barulho que meu avô, discreto como uma patada de elefante, fazia ao sair para o curral. Era vestir o agasalho correndo, enfiar as galochas nos pés e sair correndo atrás dele para tirar leite de vaca. No portão, o cachorro já estava esperando para nos acompanhar, acho que fazia parte do pacote de bom dia da natureza, um fila gigante pulando nos seus ombros e lambendo sua cara. Depois do curral, pomar. Frutas fresquinhas do orvalho nos esperavam para um bom café da manhã, depois do leite morno com achocolatado, tomado ali mesmo no curral. A noite, antes de dormir, era hora de ouvir as mais divertidas histórias, meu avô e avó contavam de suas infâncias, das infâncias da minha mãe e dos meus tios, das viagens e peças pregadas nos primos que não eram acostumados com fazenda, histórias de meus antepassados, histórias de aprendizados e estripulias.

Assim aprendemos, meus primos e eu, como funciona a natureza, a reconhecê-la em cada detalhe, como uma flor germinando, um pássaro cantando, o sol nascendo. Aprendemos também a risada e alegria genuína, não necessariamente eufórica, mas de uma certa leveza. Aprendemos que ao sorrir, que seja para um cachorro, a natureza sorri de volta, nem que seja porque o seu sorriso alivia os próprios pesares.

Agradeço, verdadeiramente, por ter a oportunidade de tamanha aprendizagem, e espero conseguir passar isso para as pessoas com quem convivo. Fico extremamente feliz quando vejo campanhas em São Paulo que visam esse mesmo aprendizado àqueles que não estiveram tão próximos da natureza assim, como por exemplo a horta na avenida Paulista criada pelo grupo “Hortelões Urbanos”, ou a ação “Sorria São Paulo”, promovida pelo Catraca Livre. Faz-se importante, em nossa correria desmazelada, ter pessoas, estranhas pessoas, que nos lembrem de coisas simples, mas que fazem toda a diferença, como aprender a sorrir, ou simplesmente se lembrar disso. E espero que isso continue para gerações futuras.

Para quem quiser saber mais das campanhas mencionadas ou de outras tão interessantes quanto:

http://horteloesurbanos.wordpress.com/

http://catracalivre.folha.uol.com.br/

Daniela Panisi

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