Manifesto

Manifesto

Difícil passar incólume por tudo que anda acontecendo em nosso país. Ontem, com todas as manifestações em São Paulo recebi inúmeros telefonemas de pessoas preocupadas, vai saber o que acontece na cabeça desse bando de jovens loucos?! Engraçado que uma das pessoas preocupadas e contra qualquer tipo de participação neste movimento foi minha avó. Achei estranho, afinal cresci ouvindo histórias de como ela ia para a rua, como foram “caçados” pelos militares até dentro dos cinemas, correrias, sapatos perdidos, dignidade massacrada e orgulho ferido. E porque não eu poderia tentar fazer alguma diferença? Será que também não poderia tentar mudar esse país? Tudo bem, talvez passe-livre não seja possível, mas a questão vai muito além dos vinte centavos. Segundo Jô Soares[1]:

“Pra quem não entendeu ainda: os vinte centavos, um por um:

00,01 – a corrupção
00,02 – a impunidade
00,03 – a violência urbana
00,04 – a ameaça da volta da inflação
00,05 – a quantidade de impostos que pagamos sem ter nada em troca
00,06 – o baixo salário dos professores e médicos do estado
00,07 – o alto salário dos políticos
00,08 – a falta de uma oposição ao governo
00,09 – a falta de vergonha na cara dos governantes
00,10 – as nossas escolas e a falta de educação
00,11 – os nossos hospitais e a falta de um sistema de saúde digno
00,12 – as nossas estradas e a ineficiência do transporte público
00,13 – a prática da troca de votos por cargos públicos nos centros de poder que causa distorções
00,14 – a troca de votos da população menos esclarecida por pequenas melhorias públicas (pagas com dinheiro público) que coloca sempre os mesmos nomes no poder
00,15 – políticos condenados pela justiça ainda na ativa
00,16 – os mensaleiros terem sido julgados, condenados e ainda estarem livres
00,17 – partidos que parecem quadrilhas
00,18 – o preço dos estádios para a copa do mundo, o superfaturamento e a má qualidade das obras públicas
00,19 – a mídia tendenciosa e vendida
00,20 – a percepção que não somos representados pelos nossos governantes

Se precisarem tenho outros vinte centavos aqui, é só pedir.”

(Via Clube do Jornalismo)

A questão é que estamos cansados de ser explorados e enganados. Falo pelo menos por mim, revolta-me ver a verba para o “lanchinho” no senado (R$31,2 mil/mês), mega eventos super faturados, salários exorbitantes, com direito a décimo quarto salário (e sem trabalhar nem seis meses inteiros no ano). Estou cansada de ver se repetir a colonização escravista, os votos de cabresto e o coronelismo desenfreado. Cansei de ver nossa querida presidenta falar que é emocionante ver as manifestações e que elas exemplificam nossa democratização. Ah, por favor dona presidenta (e sim, presidenta com “p” minúsculo mesmo), palavras são bonitas, mas já cansei de ouvi-las e nada mudar. E não apenas vossa senhoria, mas todos os outros de sua mesma laia, lacaios da corrupção. Agora aprovam projeto para cura gay, tentam aprovar ementa que considera qualquer manifestação na copa um crime de terrorismo, ou seja, voltemos à ditadura.

Concordo com vários filósofos e professores sociais que dizem que nosso país ainda é bebê nesse negócio de democracia, ainda temos muito a aprender. Entretanto, até este momento, sentia-me como uma espécie de ameba, sabendo de tudo o que acontece, com um sentimento de extrema impotência e continuando, como uma mula no cabresto, sem direito de olhar para os lados. Sempre ouvindo que o Brasil é o país do futuro, e sempre esperando pelo futuro. Lembro-me agora de quando criança, indo pra adolescência, e perguntava para minha avó porque as coisas funcionavam de uma determinada maneira, como por exemplo porque meninas tinham que ser educadas e não falar palavrão, porque não podia brincar como os meninos, ou porque tinham pegado todo o dinheiro da poupança do meu avô, que trabalhou a vida inteira. A resposta sempre me deixava enfurecida e com um sentimento de que não podia ser assim, segunda ela: “é assim porque Deus quis”.

Desculpem-me àqueles que se aborrecem com a repetição do tema. Acontece que na década de 60 ainda não era nascida, em 1992, no Impeachment, tinha apenas seis anos de idade e me lembro apenas de algumas cenas na televisão. Sou da geração que cresceu sentada nas salas de aula, bem comportada. Admirando com olhos ávidos a geração coca-cola.

Agora, mais de vinte anos, vejo a multidão na rua e posso dizer com orgulho que sou brasileira. Por isso mãe, pai, vó, tio, tia, cachorro, periquito, papagaio: Não se preocupem, apenas continuamos a história, estamos tentando mudar o Brasil!

Legião Urbana – Geração Coca Cola AO VIVO Metropolitan


[1] Atribuíram a autoria a ele, não tenho certeza se é realmente uma fonte fidedigna, mas por minha admiração a ele espero que seja.

Sobre Daniela Panisi

Um comentário

  1. É isso aí, Daniela!!! e eu estava lá ontem. Trajeto: Faria Lima, Cidade Jardim e Nove de Julho. Pense…

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