Para o próximo ano desejo…

Para o próximo ano desejo…

Ano velho ficou na reminiscência, vestígio nostálgico. É tempo de balanço, não daqueles que vai para frente e para trás, mas tempo de rever, conjecturar o que foi bom, o que não foi. Promessas de melhoras, sonhos não cumpridos, metas a executar para o ano que está por vir… E parece que foi ontem que estava escrevendo quase a mesma coisa sobre dois mil e doze.

Arrisco-me no balanço que vai e vem para frente e para trás. Vou divergir um pouco do assunto, mas, prometo, caro leitor, que tento costurar tudo, em zigue-zague, fazendo algum sentido no final.
Esses dias assisti a uma palestra sobre como nossas escolas matam a criatividade. Ken Robinson diz que na escola, aprendemos em termos práticos a velha dicotomia mente-corpo da metafísica[1]. Somos ensinados a pensar, pensar e pensar, enquanto o corpo, as emoções e as relações, partes também pensante disto que chamamos ser, são relegados. O corpo é mero veículo que leva nossa cabeça para onde ela tem que ir. Assim aprendemos a ser racionais, seres quadrados e encaixados nos padrões de vida vigentes, sem nos responsabilizar pela própria vida.

Existe uma frase em uma música que diz assim: “camarão que dorme a onde leva”, é isso que vamos fazendo com a vida. Somos levados pelas ondas daquilo que “temos” que fazer, das nossas “obrigações”. E os sentimentos e as sensações são desconsiderados como parte dessa vida. Sobre uma vozinha lá no fundo dizendo: “Fale aquilo que pensa! Fale o que sente! Não deixe aquela pessoa ir embora! Peça demissão! Arrisque-se! Etc…”.

Se nosso modo de se e nossas atitudes são incoerentes com essa vozinha durante muito tempo, se continuamos a empurrar nossos sentimentos, a vida se manifesta. E bem onde estamos menos atentos: no corpo. Síndrome do pânico, fibromialgia, depressão, crises de ansiedade, gastrite, imunidade baixa, enxaquecas e tantas outras começam a “pular” nos hospitais. E, mesmo nestas situações em que o corpo tenta nos parar, e a angústia latente grita, continuamos repetindo como um mantra: “isso é besteira, tenho que continuar, tenho que ir pro trabalho.”

Tenta prevalecer, a todo custo, o racional, pois “temos” que ser fortes, e expressar o que sentimos nos torna vulneráveis. Na vulga concepção social ficar vulnerável é ser fraco.

Desta forma cometemos o suicídio de nossa criatividade, sufocando-nos. Acabamos sempre deixando para depois, em nome dos afazeres do trabalho (Deus de nosso tempo), as coisas que nos constituem enquanto nós mesmos. Aquele encontro com os amigos, a viagem para descanso, o tão sonhado livro,a tão falada qualidade de vida, entre tantos outros desejos “Reveillonísticos”. Fica também o desejo de dizer aos amigos o quanto são importantes, aos amores o quanto fizeram bem, e também mal, de dizer à alguma pessoas um simples “eu te amo”.

Falei, caro leitor, que tentaria costurar tudo em algum momento. Pois bem, eis que o consegui fazer.

Enfim, mais um ano e mais desejos não satisfeitos, mais um “suicidiozinho” de si-mesmo. Mas tudo bem, temos tempo. Temos o ano que vem. Temos uma vida inteira. Até que a vida acaba…



[1] Metafísica : n substantivo feminino

Rubrica: filosofia.

1     no aristotelismo, subdivisão fundamental da filosofia, caracterizada pela investigação das realidades que transcendem a experiência sensível, capaz de fornecer um fundamento a todas as ciências particulares, por meio da reflexão a respeito da natureza primacial do ser; filosofia primeira

2     no kantismo, estudo das formas ou leis constitutivas da razão, fundamento de toda especulação a respeito de realidades suprassensíveis (a totalidade cósmica, Deus ou a alma humana), e fonte de princípios gerais para o conhecimento empírico

3     Derivação: por extensão de sentido.

qualquer sistema filosófico voltado para uma compreensão ontológica, teológica ou suprassensível da realidade

Sobre Daniela Panisi

Um comentário

  1. Dani,
    Gosto de ler o que escreve. Do conteúdo e forma. Cuidado com os “suicidiozinhos” hein?!?! 2014 motivos para arriscar!!!
    Feliz Ano Novo.
    Boas Festas!
    Bonon

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