Sobre a morte

Sobre a morte

Outro dia, por razões infelizes desta vida, lembrei-me de um texto “Sobre a morte e o morrer” de Guto Pompéia. Nessas horas difíceis da vida, depois do sofrimento, sempre me lembro de palavras de acalento. Apenas lembrar-me do títulojá me confortou. Não me lembro agora o exato conteúdo do texto, como sempre acontece face a morte, a evitamos. Talvez eu estivesse evitando o conteúdo específico do texto, quem sabe? Entretanto, recordo-me que Guto falava em verdade sobre a vida, e o quanto a morte pode nos trazer a vida, o sentido e a apropriação de nossa história. Infelizmente isso nunca vem sem dor.

A primeira vez que me deparei com a orte era bem nova. Minha bisavó faleceu, deveria ter três ou quatro anos de idade, pouco me recordo de seu rosto, porém muito me lembro de minha avó desligando o telefone da sala de nosso apartamento chorando, vovó Ana morreu. Pensei que aquilo devia ser muito ruim para fazer alguém chorar, mas não sabia direito. Não me lembro de mais nada. Depois foi a vez do Tatu, vira-lata querido, sumiu. Meu avô disse que tinha fugido, talvez para impedir a choradeira da criançada. Anos mais tarde, já devia ter meus dez aninhos de idade, o falecimento do pai do melhor amigo da época trouxe grande dor. E a impressão que a morte ia deixando era assustadora. Ainda era muito nova, não entendia direito, mas a dor era tamanha naqueles que ficavam, que coisa boa não deveria ser. Poucas, e específicas, cenas aparecem em minha memória deste acontecimento.

Até que anos mais tarde, já nos meus dezesseis, o falecimento da mãe de minha melhor amiga, a “tia” muito estimada, por um erro médico, trouxe consigo um sentimento de inconformidade. Não me recordo direito se antes disso ou nessa época meu avô começou a ficar doente, nenhum médico achava explicação, até que depois de uma via sacra por hospitais descobriram, o diagnóstico? Mielodisplasia Aguda. Aos meus dezessete anos perdi uma das pessoas mais importantes de minha vida. Guardo todos os detalhes deste dia, e alguns outros detalhes importantes do meio do caminho. Detalhes que fizeram uma grande diferença em minha história com ele, como fazer palavras cruzadas, montar quebra-cabeças e jogar Tetris, uns poucos momentos de aproximação com o italiano frio.

Nesta época achava que tinha que ser forte e não chorar, não sofrer pela dor da perda. Pouco demonstrei a dor que sentia. Minha alternativa era sempre me afastar. No dia seguinte estava nadando, como é minha maneira de resolver incômodos até hoje. A água faz passar.

Hoje, ao ver aquele que estava ao meu lado nestes dias difíceis (e em tantos outros) sofrer a perda de um ente querido, chego a algumas conclusões muito pessoais sobre a morte.

A primeira conclusão é a de que ser forte é deixar doer, é viver a dor da perda e sofrer a falta daquele que se vai. A segunda é que a morte em si não é assustadora para mim (afinal, nunca morri para saber realmente como é), o que me assusta e me dói na morte é o vazio naqueles que ficam, a impotência e o indizível da inevitável.

Daniela Panisi
Psicóloga Clínica
R. Tabapuã, 594

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