Tapa-olho

Tapa-olho

Gosto muito de histórias, acho que elas expressam tantos ensinamentos. Quando era criança, lá no cerrado, era comum de vez em quando vermos uma carroça na rua, puxada por um burro (ou cavalo) com tapa olhos. Quando íamos para o interior então, era o meio de transporte principal nas cidadelas.

Não entendia o porquê do tapa-olhos. Ficava me perguntando, afinal, o burro (ou cavalo), conseguia enxergar os carros a sua frente e ouvir. Um dia resolvi perguntar ao meu avô: Afinal, por que os burros de carroça usavam tapa-olhos?

Meu avô, com toda a delicadeza de um mineiro que cresceu na roça, prontamente respondeu: “Uai, porque burro é tão burro que quando a gente coloca tapa-olho nele, o burro acha que os carros e as pessoas não existem. Só porque ele não vê o que tem do lado dele, daí ele não fica com medo e puxa a carroça. Se burro não usa tapa-olho se assusta e sai a galope, ou empaca, ai não dá pra andar de carroça”

Pois veja bem a sabedoria da xucreza! Quantas vezes não fazemos isso em nossas vidas? Colocamos tapa-olhos, seguimos um só caminho sem parar para olhar para nossos demônios. Não poderíamos descobrir que em nossos medos jaz novas possibilidades? Novos caminhos?

Pois ficamos em nossa burrice existencial, sem enxergar aquilo que está ao nosso redor, sem descobrir o que temos de mais óbvio, porque teremos medo. Esquecemo-nos que por vezes é preciso amedrontar-se, empacar para poder olhar para o que nos dá medo, mas também pode nos trazer a liberdade. Talvez uma chance de nos livrarmos da carroça pesada nas costas, e das chicotadas desmerecidas.

Daniela Panisi

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